Ele pôs vizinhos a conversar sobre pessoas trans na Índia — e diminuiu o preconceito Duncan Webb dividiu um grupo: metade debateu sobre direitos trans e outra metade não. Resultado? Os que participaram nas conversas mostraram estar mais disponíveis a contratar pessoas trans.
Duncan Webb dividiu um grupo: metade debateu sobre direitos trans e outra metade não. Resultado? Os que participaram nas conversas mostraram estar mais disponíveis a contratar pessoas trans.
Mariana Durães
É com esta ideia em mente que dedica grande parte do seu trabalho a tentar compreendê-la. O economista e professor assistente da Nova School of Business and Economics percebeu que “há pouca investigação sobre pessoas LGBT+ em países de baixo ou médio rendimento – sendo a maioria feita na Europa ou nos EUA” e decidiu olhar para uma comunidade de pessoas trans na Índia. Descobriu que o segredo para combater a discriminação pode residir na conversa. Já lá vamos.
“Em 2014, na Índia, o Supremo Tribunal reconheceu mais direitos às pessoas trans e, em 2018, a homossexualidade foi descriminalizada
(https://www.publico.pt/2018/09/06/mundo/noticia/homossexualidade-deixa-por-fim-de-ser-crime-na-india-1843207). Achei importante perceber se estas mudanças legais estavam a traduzir-se em mudanças reais nas atitudes e comportamentos”, começa por enquadrar o investigador britânico de 32 anos, autor do estudo
(https:www.povertyactionlab.org/evaluation/impact-group-discussion-hiring-discrimination-against-transgender-workers-india). Do Silêncio à Solidariedade: Como a Comunicação Sobre uma Minoria Influencia a Discriminação.
Começou, então, a fazer entrevistas em cidades e zonas rurais sobre questões LGBT+, e teve a primeira surpresa: “Na Índia existe uma comunidade trans com uma história muito longa e estas pessoas são bastante visíveis na sociedade. Infelizmente, muitas vezes são associadas à mendicidade ou trabalho sexual, mas as pessoas sabem que elas existem, mesmo que não as aceitem. Já a homossexualidade, fora das elites mais educadas, muitas vezes nem é compreendida como conceito, ou é confundida com ser trans. Isso faz com que seja mais invisível e rejeitada quando surge no debate.”
Foi em Chennai, no leste da Índia, que recorreu a 3397 pessoas eis para medir resultados concretos. 93% dos participantes disseram desde logo considerar um acto discriminatório errado – mas nem sempre o que dizemos acreditar é como realmente procedemos. Por isso, Duncan fez uma experiência: dos três mil participantes, seleccionou aleatoriamente uma parte para conversarem entre eles – vizinhos e pessoas da mesma comunidade – sobre se contratariam
(https://www.publico.pt/2022/ll/27/economia/noticia/pessoas-trans-encontram-medodificuldades-violencia-mercado-trabalho-2029375) ou não uma pessoa trans; a outra parte do grupo não tinha qualquer conversa. E testou: “Ofereci às pessoas um serviço gratuito de entrega de compras e pedi que escolhessem quem as faria: uma pessoa trans ou uma pessoa eis. Assim consegui medir a discriminação real”, descreve.
Entre o grupo que não teve qualquer discussão sobre o tema, as pessoas foram discriminatórias “ao ponto de aceitarem perder o equivalente a duas vezes o seu gasto diário em comida só para evitar uma pessoa trans”. “Mas se as pessoas conversarem abertamente sobre o tema, parece quase acabar completamente com a discriminação, mesmo quando têm de fazer escolhas individualmente, fora do contexto da discussão”, explica. Os que participaram em discussões de grupo de três pessoas tinham mais 17 pontos percentuais de probabilidade de seleccionar uma pessoa transgénero para a sua entrega em relação aos que não participaram; os que participaram em discussões de duas pessoas tinham mais 13 pontos percentuais.
“É surpreendente. Se pensarmos em juntar pessoas de um meio racista e em pô-las a falar umas com as outras podemos pensar que vai acentuar o seu nível de racismo, mas, neste caso, persuadiram-se umas às outras para não discriminarem.”
Megafone social: procura-se
O segredo pode estar nas pessoas pró-trans e pró-direitos humanos, que Duncan percebeu serem “muito mais vocais do que os que discriminam” – uma conclusão que pode surpreender qualquer um que utilize a internet. “As redes sociais promovem esse tipo de má dinâmica, acho. E ninguém está a interagir com ninguém pessoalmente. Neste caso é diferente. São pessoas que se conhecem bem a conversar, que têm opiniões diferentes mas conseguem falar umas com as outras de forma mais persuasiva. Confiam mais uns nos outros do que em alguém anónimo nas redes sociais”, afiança o investigador.
A viver em Portugal, diz ver com perplexidade a reversão à lei da identidade de género (https://www.publico.pt/2026/03/21/politica/noticia/reversao-lei-identidade-genero-provada-mudar-2168702), aprovada em Março. Além das conversas entre pares, uma parte da sua investigação incidiu sobre o efeito de informar pessoas sobre os direitos legais das pessoas trans na Índia. Mostrou aos participantes um vídeo sobre direitos legais e outro com mensagens sobre direitos e concluiu que os que os visualizaram tinham, respectivamente, mais 10,3 pontos percentuais (um aumento de 23%) e 5,8 pontos percentuais (um aumento de 13%) de probabilidade de contratar uma pessoa transgénero em relação à percentagem avaliada antes do estudo.
“Há dois efeitos nas leis discriminatórias: uma é que prejudica directamente as pessoas ao restringir os seus direitos; outra é que dá um sinal à sociedade que é ok ser discriminatório. No meu estudo concluí que leis pró-trans ajudam a melhorar os comportamentos em relação a pessoas trans.”
Que lições podem ser retiradas desta investigação? São necessárias “medidas que identifiquem as pessoas que estão mais dispostas a falar contra a discriminação e darlhes um megafone, dar-lhes treino para encorajarem os seus pares a discriminar menos”.
O resultado já foi comprovado por outra investigação que fez em escolas em zonas rurais de Madagáscar, onde há um forte estigma em relação à menstruação: “Identificámos raparigas que já estavam dispostas a falar do tabu
(https://www.publico.pt/2020/07/10/impar/noticia/periodo-nao-tabu-rapazesmenstruam-1924036) e treinamo-las para dar informação sobre menstruação e higiene e encorajamo-las a dizer às colegas que podiam falar abertamente sobre isso. Isso teve resultados positivos na redução do estigma e inclusivamente melhorou o aproveitamento das raparigas nessas escolas.”
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